2 de janeiro de 2017 Viviane Nishiura

Doença, loteria e turnover: situações diferentes, um padrão em comum

Somos capazes de nos acostumarmos com absurdos extremos, como guerra e doença. Nossa capacidade de adaptação é assustadora, tanto que pode parecer sem lógica. Mas tem.

Conheci uma paciente com câncer que lutou contra a doença dos 14 aos 24 anos; passou todo esse tempo importante do seu desenvolvimento em cirurgias e tratamentos agressivos. Ao final de 10 anos, ela recebeu a notícia de remissão, ou seja, a doença não tinha mais atividade. Mas o que ela e a família esperaram dez anos para ouvir, para ela não foi essa felicidade toda que imaginavam. Porque ela se acostumou a ser doente. Passou uma década, e não uma década qualquer, mas da adolescência à vida adulta, “sendo” doente, e não “estando” doente. A doença era parte da vida dela, os tratamentos, os cuidados, as visitas ao médico, os exames, toda uma rotina à qual ela estava acostumada, sabia o que ia fazer, e o que ia acontecer depois. Com a notícia, ela passou um período com depressão, sentindo-se perdida, porque o cotidiano e as perspectivas mudaram. Mesmo que fosse para melhor.

Essa história nos dá uma noção de como funciona nosso cérebro e o poder de condicionamento que ele tem. Ele é capaz de nos “entorpecer” em situações difíceis, tornando-nos acostumados a qualquer adversidade, como forma de nos ajudar a passar por períodos ruins. Porém, a força dos hábitos e costumes é tão grande que mesmo que a situação externa mude para melhor, é difícil sintonizar o cérebro na novidade brusca assim tão rapidamente.

Um outro exemplo, bem diferente mas com o mesmo princípio, é o ganhador de loteria. O ambiente externo muda drasticamente. O cérebro da pessoa continua o mesmo, com os mesmos hábitos, costumes e pensamentos. A pessoa continua acreditando nas mesmas coisas, pensando e agindo da mesma forma, mas agora milionária. Se ela não deixa de ser o mesmo conjunto de hábitos e pensamentos que era antes do dinheiro, é provável (e comprovado) que voltará a ter quase a mesma quantia de bens e dinheiro que tinha antes de ganhar o prêmio.

No caso da paciente, que aliás está ótima, a pressa em tirá-la deste estado era grande, pois havia o medo da doença voltar devido à sua predisposição mental. Sabemos o quanto as disposições psicológicas do paciente interferem, principalmente em casos de câncer.

Somos seres acostumados, acomodados.

A acomodação não cega as pessoas. Elas continuam vendo o que é errado, sentindo o que é ruim, continuam se ofendendo, se irritando. Mas ficam presas à situação cômoda. Uma situação cômoda não precisa ser confortável. Ela pode ser detestável. Mas as pessoas se acostumam.

Ela interfere nos sentimentos e nas atitudes, e raramente é reconhecida pelo portador. Pode ser confundida com preguiça, mas é bem diferente. Não é falta de vontade, nem de energia, apesar de aparecer conjugada. A acomodação também não é conforto, não é sentir-se bem apesar das adversidades.

No mundo corporativo, vemos um percentual importante de pessoas infelizes em seus empregos, que estão neles há décadas, e que não fazem nada além de reclamar. Conhece alguém assim? O que é comum todo mundo pensar, mesmo quando se faz parte deste grupo, é que o trabalho não deve ser assim tão ruim, que situação não deve incomodar tanto, porque a pessoa não sai, quando, na verdade, ela está presa. Presa pelos hábitos, presa pelo costume, pela acomodação. Essas raízes podem se tornar tão fortes que criam medos e desculpas para não se mover. E se a situação externa muda, elas se sentem “jogadas pra fora do trem”. Perdidas, rejeitadas, com medo, sem saber o que fazer ou para onde ir.

Algumas têm a “sorte” de serem jogadas pra fora, e depois perceberem como era ruim lá dentro. Outras, por diversos motivos, não. Se o universo não muda suas vidas com qualquer adversidade ou boa notícia, elas é que não vão mudar. Vivem num conformismo de aceitar o entorno, reclamar dele, e continuar assim, porque não conseguem ver nada além. Não são cegos para a situação ruim, mas são cegos para soluções.

Por isso, o turnover baixo de uma empresa (a rotatividade de funcionários) nem sempre é um bom indicador. Uma área ser composta de gente com décadas de casa não quer dizer absolutamente que a gestão, a empresa ou a área sejam boas.

Um turnover baixo pode indicar tanto uma boa equipe, quanto um aglomerado de pessoas conformadas.

A empresa pode sofrer com isso se quiser instaurar mudanças e precisar desenvolver essas pessoas. Mas se o negócio preferir virar as costas para as tendências de mercado e continuar como está enquanto for possível, pouca consequência essas pessoas vão causar.

 

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